segunda-feira, dezembro 08, 2003

01/02/2003

Em um prédio antigo, com ares de repartição pública, chegam alguns jovens que batem o ponto para dar início a mais um dia de trabalho no local. A conversa entre eles são as dificuldades em atender os pedidos de certos tipos de "clientes". Minutos depois, algumas pessoas de todos os tipos chegam ao prédio. Uma adolescente, uma senhora idosa, um veterano da 2ª Guerra Mundial e até um jovem punk aparentemente revoltado entram no prédio sem saber exatamente o que vai acontecer.

Quando entram no local, essas pessoas são hospedadas e passam por uma entrevista. Oficialmente, é apenas nesse momento em que elas - e os espectadores - ficam sabendo o que tudo isso significa. Todos - inclusive as pessoas que trabalham nesse local parecido com um pensionato - estão mortos. O prédio em questão é uma passagem da vida para a eternidade, ou seja lá o que nos espera quando morremos.

Na entrevista, cada novo morador recebe a notícia de que terão até quarta-feira (eles são informados disso na segunda-feira) para escolher uma lembrança marcante de sua passagem pela Terra. Esta lembrança então será filmada em um estúdio pelos funcionários com a maior fidelidade possível aos fatos reais descritos por cada um.

Esta escolha, porém, não deve ser tão fácil assim, já que as demais lembranças serão sumariamente apagadas da memória de cada um. Após passarem para a eternidade, os moradores terão em mente apenas esses minutos como lembrança de suas vidas.

Além dessa visão criativa da "passagem para o outro lado" (seria o purgatório?), o diretor japonês Hirokazu Kore-ida faz de seu segundo longa-metragem uma história singela e usa-a como pano de fundo para fazer um panorama sobre as mudanças de valores - cabendo aí uma crítica ao materialismo - sofridas pela sociedade japonesa ao longo das últimas gerações.

A adolescente japonesa "bonitinha" não consegue pensar em outro acontecimento de sua vida a não ser a viagem para a Disneylândia, enquanto o veterano da 2ª Guerra não sabe qual momento, dos poucos marcantes de sua vida sem emoções, deve escolher. Os funcionários conseguem dissuadir a garota de sua lembrança tão sem importância (ela acaba escolhendo o momento em que deitava a cabeça no colo da mãe) e ajudam o senhor a decidir-se, ao emprestar 72 fitas de vídeo com suas vivências, cada qual correspondente a um ano de sua vida.

Ao mesmo tempo em que foca o roteiro nos mortos que têm que escolher suas lembranças, o filme mostra os funcionários que trabalham no local. Eles não concluíram a transição "para o outro lado" por não conseguirem escolher uma lembrança que valesse a pena ser levada. Um dos funcionários é marcado pelo seu contato com um recém-chegado. A conclusão deste contato é que, para seguir adiante, é imprescindível que se entenda e aceite o passado. O que somos nada mais é que a soma de nossas experiências passadas adquiridas. A transcendência vêm de seu entendimento.

Com o fim do prazo e as escolhas feitas, as reprodução das lembranças têm início. Nesse ponto temos talvez as imagens mais belas de todo o filme. O processo de reprodução dos cenários em estúdio, como um avião em pleno vôo, por exemplo, é uma homenagem ao cinema feita por Kore-ida. A comoção e interpretação dos personagens diante das memórias escolhidas também são emocionantes.

Ao presenciarmos a dificuldade das pessoas mortas em escolher sua lembrança número um, é inevitável que não façamos o mesmo. Se estivéssemos na mesma situação, qual lembrança escolheríamos? Depois da Vida nos mostra que a resposta pode estar muitas vezes em detalhes do dia-a-dia que deixamos passar, mas que fazem toda a diferença em nossas vidas.

O filme nos faz repensar o que de fato nos aproxima da felicidade e faz questionar se não estamos procurando-a no lugar errado. Onde estiver, temos urgência em aproveitá-la o quanto antes. Enquanto podemos.


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