sexta-feira, março 05, 2004

Rei Lear
William Shakespeare

E acho que o mais intrigante dessa obra de Shakespeare é o personagem do Bobo.

Um bobo mais inteligente que todos. Ironia engraçada.

Achei o bobo do Kurosawa (do filme adaptado que ele fez: Ran) um pouco mais denso, mas porque havia a encenação (ao contrário de um livro) e porque é um personagem que vai até o fim e faz as vezes de um outro personagem (que agora não me lembro) que injuria os Deuses dizendo que eles usam os seres humanos como fantoches do seu prazer. Além disso, infelizmente o Bobo de Shakespeare some ao fim do Terceiro Ato.

Mas igualmente deixa sua parte.

"Bobo: Esplêndida noite, capaz de esfriar até uma cortesã! Antes de ir embora vou fazer uma profecia:

Quando os padres só falarem o que exalte
Cervejeiros não puserem água no malte
As damas ensinarem honra às freiras
Homem de bem não ficar engalicado
Só ficarem os que andam com as rameiras
Não houver cavalheiro endividado
Nem escudeiro** vivendo na miséria
Todo processo for bem processado
Não existir intriga deletéria
Nem amigos do alheio no mercado
Avarentos contarem o dinheiro à luz do dia*
Decaídas e devassos não estiverem
No mais alto grau de hierarquia

Aí este reino de Albion
Vai ser só o que é bom
Será esse o tempo, quem viver verá,
Em que andar, os pés se usará.

Merlino fará esta profecia, um dia, pois eu vivo antes do seu tempo."

Achei uma das melhores falas já escritas. Pq?
Ironia pura. E Shakespeare é apenas um teatrólogo?!
Acho que ele fez com muita sutileza uma das melhores críticas da sociedade. Que infelizmente perdura até hoje.
E na última frase, uma homenagem, talvez a ele mesmo o Bobo, ou a todos nós, que vivemos além de nosso tempo.

*ele já conhecia o Antunes
**escudeiro era o auxiliar do cavalheiro, que carregava as armas e vestia a armadura (se eu não me engano), ou seja, o estagiário

Ps. O meu livro é uma tradução de Millôr Fernandes
Vou tentar ler o original, mas acho que deve ser difícil por causa das falas de loucuras do Rei e de Edgar.
Ps. 2 grifos meus
Terminei de ler: Rei Lear

Shakespeare conseguiu superar minhas expectativas. Achava que Akira Kurosawa tinha se saído melhor nessa. Se saiu em termos, acho o filme maravilhosamente superior em alguns aspectos. Mas também o é o livro.

E quem nunca leu uma tragédia Shakespeareanas ainda não sabe o que é uma tragédia. Tão necessária quanto uma tragédia Grega de Sófocles.

Maravilhoso, inteligente, intrigante e muito filosófico. Minha impressão sobre o livro.

Amei.
Tem vezes que conversamos tanto conosco que nos completamos.
Escrevo o que penso, não o que acho, nem o que deveria, muito menos o que gostariam.
Sobre Dogville

A melhor coisa a saber do mundo dos cães, do nosso mundo. Ao meu ver é a relação de poder que decorre diretamente da relação de dependência.

Seja porque vc esta se refugiando e para que seja mantido a salvo tenha que permitir que te escravizem, te estuprem, te humilhem.

Seja porque vc dependa economica e financeiramente de alguém e este lhe diga: Enquanto vc viver sobre meu teto, vai ter que me obedecer. (graças a Deus não é o meu caso, mas é comum)

Seja porque uma pessoa dependa mais da outra numa relação e portanto com medo de a perder tenha que se submeter mais a vontade desta.

Seja porque uma pessoa tenha uma carreira jurídica p/ seguir e por isso não pode ter o nome sujo sob pena de ter toda a vida destruída e por isso ter que se submeter a quem possa fazê-lo.

Seja porque a pessoa não está de carro e esteja no carro de outra a milhas de sua casa e portanto se for largado na estrada não possa voltar.

Seja porque ela esteja na casa de outrem e esta a manda embora no meio da madrugada e ela não tem como o fazer.

Enfim. Depender é se fuder.

E infelizmente a natureza humana é nojenta o bastante para usar-se disso para ter o que quer.
Infelizmente os seres humanos apenas querem.
QUEREM QUEREM QUEREM QUEREM QUEREM

Só sabem conjugar esse verbo e não se importa de como fazê-lo ter efeito.
Viva Maquiavel.
Às vezes incomoda. Tem momentos que vc quer ficar sozinho. Tem coisas que vc não quer contar, mesmo assim as pessoas insistem em saber.

Ninguém chega a algum lugar por acaso. Mentira, chegam. Mas muitos sabem o que estão procurando.

E o pior mentiroso, é aquele que acha que sabe mentir, ou que se acha suficientemente inteligente para.